Qual a relação entre um texto filosófico e a prática de escrever "enchendo linguiça"? Ops! Escrever prolixamente uma redação? Talvez Nietzsche nos indique um caminho.
O segredo do texto não está apenas na sua estética como paragrafação ou respeito as margens, mas, também, na forma de concebê-lo de sua cabeça até a ponta de seus dedos. De posse de uma caneta ou um teclado. Quando escrevemos podemos devagar uma ideia objetivando ser o mais claro possível ou para "enrolar". Este último, objeto deste artigo, recebe o modesto nome de prolixidade. Um possível antídoto contra isso poderia ser desenvolver a prática de escrever de forma afórica, isto é, curtas orações com sentidos e significados reduzidos a ela.
Um filósofo alemão se dedicou a escrever desta forma. O nome Friedrich Wilhelm Nietzsche é constantemente lembrado desde as aulas universitárias até em conversas de barzinhos. Nietzsche ao longo de suas publicações teve o cuidado de procurar desenvolver uma forma de escrita que pudesse, de certo modo, superar as limitações da linguagem. O historiador francês Patrick Woltling se impressiona com a forma aforística e fracionada que o filósofo alemão concebia seu pensamento.
Escrevendo em aforismos
Escrever em aforismos é colocar em cada sentença um sentido completo nela mesma. Seria como se cada período ou oração pudesse navegar por entre os interstícios do texto. Aliás, a palavra texto vem do latim texere que significa 'coisa tecida', e, portanto, os aforismos de Nietzsche desafiam a compreensão da estrutura textual uma vez que podem apresentar de maneira compacta ideias de caráter ultra complexa e desconectada do contexto.
Logo no primeiro capítulo do livro O Anticristo Nietzsche solta uma pérola aforística "Não sei sair nem entrar; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar". O filósofo atribui esta sentença de lamentação ao homem moderno, mas o que Nietzsche está covardemente fazendo é se escondendo atrás de um artifício linguístico para não assumir que este homem é ele mesmo. O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho comenta que não podemos negar que existe um certo genialismo poético em Nietzsche, porém isso não compensa o seu vazio de conteúdo. Não há uma seriedade ou sinceridade na obra de Nietzsche, mas um jogo de acusa e esconde ou uma espécie, digo eu, atirar pedras e esconder as mãos.
Vencendo a prolixidade na redação
Não, você não precisa ser um Nietzsche para escrever de forma compacta. Também não precisa ser crítico da linguagem ao ponto de escrever em aforismos. Basta somente economizar as palavras, buscar a ideia central; ser objetivo, direto e cirúrgico. A prática de "encher linguiça" antigamente era colocar carnes que não interessava a nobreza em tripas de porco e entregar aos pobres, daí, a origem da nossa expressão: "para de encher linguiça".
Vencer a prolixidade é obter conteúdo de valor para mais tarde apresentá-lo. E, diferente do que almejava Nietzsche, procurar valorizar a verdade ou a busca dela.
CONCLUSÃO
Olhando para o tamanho do texto que acabei de redigir pode ser que tenha praticado prolixidades em algum momento. Neste caso teria que dar razão ao filósofo alemão no tocante a reconhecer que o problema está na nossa linguagem ou, creio eu, em seus meios.
Daniel Júnior
Bacharel em Administração

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